sexta-feira, 14 de junho de 2013

O seu salário é “animado”?

Por: Luiz Roberto Fava

Antes que você se assuste ou fique curioso com o título acima, quero esclarecer que a palavra “animado” tem, para mim, um sentido bem mais profundo do que pode parecer à primeira vista.

Este “animado” deriva do latim anima, que significa o que anima, o que dá movimento ao que é vivo, o fôlego da vida. Ainda significava sopro, ar, brisa e, a partir daí, adquiriu o sentido de princípio vital, alma, pois esta sempre foi tida como algo imaterial, como um movimento de ar.

Bem, o título deste texto merece algumas considerações.

Desde o final da década de 90, as empresas começaram a se voltar para o binômio trabalho/vida, conforme descreve Richard Barret em seu livro Libertando a alma da empresa – Como transformar a organização numa entidade viva.

Ele cita que, em 1996, a pesquisa de Willian Mercer revelou que “os respondentes acreditam que os programas trabalho/vida afetam positivamente o moral, o serviço, a produtividade e o recrutamento dos empregados.”

Cita também que o Centro de Minnesota para a responsabilidade Corporativa mostrou as seguintes vantagens das estratégias trabalho/vida para os empregadores:

a – reduzem o custo de contratação, treinamento e desenvolvimento;

b – ajudam a reter trabalhadores talentosos;

c – aumentam a produtividade reduzindo as faltas, o estresse e as distrações no trabalho;

d – aumentam a lealdade do empregado para com a organização;

e – constroem uma imagem positiva no mercado;

f – fortalecem os laços familiares e desenvolvem uma sociedade mais saudável.

Ruy Shiozawa, CEO do Great Place to Work (GPTW), diz que “o trabalho é parte da vida, dos sonhos e da realização das pessoas, e é nele que colocamos nossas principais expectativas”.

Tudo isso acaba resultando na necessidade de tornar o ambiente de trabalho mais humanizado. Perceber que as pessoas que nele trabalham sejam vistas como Seres Humanos Integrais, portadores de corpo, mente (emoções, intelecto) e espírito (alma).

Se os gestores querem que seus colaboradores trabalhem pondo todo o seu Ser (corpo, mente, alma) naquilo que desempenham, necessário se faz que a organização também se desenvolva da mesma maneira.

As pesquisas realizadas pelo GPTW mostram que salários e estabilidade não determinam a escolha de uma corporação e nem as razões para que um colaborador nela permaneça.

O estudo da consultoria DMRH revelou que os motivos que fazem um profissional permanecer em uma empresa são:

a – valores da empresa;

b – desafios;

c – desenvolvimento e aprendizado;

d – remuneração e benefícios;

e – crescimento profissional.

Cada vez mais as empresas vem entendendo que pessoas são Seres Humanos Integrais e assim devem ser vistos e não mais como coisas, máquinas ou simplesmente recursos. Com o avanço de tecnologias mais e mais sofisticadas, gestores devem ter em conta que devemos aprender a viver COM máquinas e não COMO máquinas e fazer com que a tecnologia trabalhe a nosso favor e não fazer com que nos tornemos escravos dela.

Se uma empresa quer que seus colaboradores ponham sua alma no negócio, ela deve criar condições para que isso ocorra. Só assim eles irão trabalhar felizes, comprometidos e engajados.

Para isso, há a necessidade de reconhecer que cada Ser Humano Integral é portador de oito áreas, as quais já me referi em alguns de meus textos, mas que não custa relembrá-las: física, emocional, intelectual, profissional, financeira, lazer, relacionamentos (inclui a família) e espiritual.

Gestores com este tipo de visão, onde cada pessoa é percebida como um indivíduo, único e indivisível, são capazes de estabelecer uma série de ações e programas direcionados a cada uma destas oito áreas.

Seria enfadonho descrever todas elas, visto que cada empresa as desenvolve de acordo com suas necessidades, mas posso citar algumas, como exemplo:

◦ área física: academia, ginástica laboral, grupos de corrida, check up, ações de promoção da saúde, programas específicos (obesidade, tabagismo, doenças crônicas, alimentação saudável, saúde do homem e da mulher, etc.);

◦ área emocional: desenvolvimento de um EAP (employee assistance program) que inclui suporte psicológico, jurídico e financeiro, auxílio funeral, programas de recuperação de dependentes químicos, palestras motivacionais, creches (filhos, pais e animais de estimação), pet day, comemorações variadas, etc.;

◦ área intelectual: bolsas de estudo parciais ou totais (ensino médio, universitário, pós-graduação, MBA, idiomas, treinamentos técnicos e operacionais), programas de expatriação, concursos (poesia, contos), coaching e mentoring, biblioteca, videoteca, etc.;

◦ área profissional: programas de reconhecimento e valorização, política de feedback contínuo, horário flexível, home office, plano de carreira, prêmios por superação de metas, etc.;

◦ área financeira: programa de remuneração variável (bônus fixos, participação nos lucros, comissões, etc.), auxílio-farmácia, auxílio-alimentação, plano de saúde médico e odontológico, seguro de vida, previdência privada, etc.;

◦ área do lazer: sala de descompressão contendo vídeo games, mesas de sinuca, pingue-pongue e pebolim, uso da internet pessoal, cursos variados (artesanato, culinária, danças de salão, violão, coral, etc.);

◦ área dos relacionamentos: participação do colaborador em ações sociais e voluntariado (campanha do agasalho, brinquedos , alimentos), comemorações, happy hour, ações de integração social (churrascos, jantares), etc.;

◦ área espiritual: espaço ecumênico, prática do relaxamento e meditação, etc.

É óbvio que todos estes exemplos de ações tem um custo para as empresas. Mas se a prioridade for as pessoas e não o negócio, provavelmente a ideia será que a produtividade e o crescimento e expansão do negócio deverá estar atrelado à felicidade de quem produz e aquele custo será traduzido como investimento.

“Eu quero pessoas que produzam e vivam felizes com isso” deve ser o lema dos gestores e das companhias que desejam colaboradores que ponham seu corpo, sua mente e sua alma naquilo para o qual foram contratados.

E como felicidade é algo intangível mas que se relaciona com a alma de cada um, o salário “animado” é aquele que reflete não apenas o ganho nominal mas também tudo aquilo que a empresa investe nas ações que contemplam as oito áreas do Ser Humano Integral e que faz com que permaneçam na empresa, engajados e comprometidos.

Se, antigamente, a frase usada por muito profissionais de publicidade era “O segredo é a alma do negócio”, hoje podemos afirmar que as empresas e colaboradores vencedores partilham da frase “A alma é o segredo do negócio”.
Fonte: Fava Consulting

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