segunda-feira, 26 de maio de 2008

Como o corpo humano resiste a situações-limite

Na China, nove dias já se passaram desde o terremoto que arrasou a região central do país. A esperança que movia o trabalho das equipes de resgate, em encontrar sobreviventes, quase não existe mais.
Agências internacionais de notícias divulgaram na manhã de quarta-feira, 21, mais um caso impressionante. O resgate de Wang Youqun, de 60 anos de idade, vai entrar para a história. Ela foi encontrada depois de passar 195 horas debaixo dos escombros.
Wang contou que para se manter viva, bebia água de chuva. Disse que ficou inconsciente durante um dia inteiro, depois que uma viga bateu em sua cabeça. Wang estava dentro de um templo atingido por um deslizamento de terra. Ela conta que conseguia se mover, mas um segundo tremor a imprensou entre duas pedras. A aposentada sofreu uma fratura no quadril e escoriações no rosto.
Na quarta, 21 helicópteros da Força Aérea resgataram mais de 600 pessoas. Os moradores de Quingping estavam isolados em uma região montanhosa. A operação durou 11 horas. governo chinês anunciou, no início desta manhã, o resgate de um sobrevivente. Uma mulher foi encontrada dentro de um túnel de uma central elétrica na cidade de Hongbai.
O que explica a resistência do corpo humano em situações-limites?
A aposentada Lúcia Regina da Silva sobreviveu à explosão de um shopping em Osasco, na grande São Paulo, há quase 12 anos, em junho de 96. Foram duas horas sob os entulhos. “Ao mesmo tempo ue você se sente fraco, você quer viver e você acaba ficando forte ao mesmo tempo. Então, seu organismo não está agüentando e dentro dizendo: ‘eu preciso sair daqui, eu quero sair daqui”, conta Lúcia.
O menino Ismail, de 6 anos, ficou uma semana soterrado após um terremoto no noroeste da Turquia. Um outro ano, de 56 anos, resistiu 13 dias, só tomando água que vazava das ruínas. Como é possível sobreviver em condições tão adversas?
Em 2005, a força da tsunami arrastou um homem por dois quilômetros. Ele foi retirado debaixo de escombros cinco dias depois. Durante esse tempo, não comeu nada. Muitos sobreviventes tiveram experiência semelhante .”Raramente um idoso vai sobreviver a uma situação como essa. Da mesma maneira, crianças muito pequenas raramente vão sobreviver, devido às necessidades de alimentação que elas têm”, explica o cirurgião geral Milton Steiman.
“Fundamentalmente, a fé que ele possa ter numa entidade superior, em Deus, faz com que ele seja capaz de superar as maiores dificuldades”, declarou o psiquiatra Talvane de Moraes.
Sem lesões graves, o corpo tem reserva para agüentar as primeiras 24 horas sem comer nem beber água. No segundo dia, o organismo começa a ficar desidratado e vai buscar outra fonte de alimentação. A primeira reserva de energia sai do fígado, o glicogênio, e dos músculos.
No terceiro dia, por falta de água, o rim começa a parar. A liberação de potássio e a queda do índice de uréia podem levar a uma parada cardíaca. O metabolismo passa a se alimentar da reserva de gordura que formam o chamado corpo cetônico. “Esses corpos cetônicos passam uma barreira que existe entre o sangue e o cérebro e fazem com que o cérebro entre em torpor e depois até coma”, afirma Milton Steiman.
No estágio seguinte, começam a acontecer alterações cerebrais e lesões cardíacas mais graves. A energia vem da proteína dos músculos. Especialistas dizem que é raro um sobrevivente de desabamento não sofrer nenhum tipo de trauma. O mais comum é ter problemas físicos para o resto da vida, além do lado psicológico que fica abalado.
“Existem seqüelas emocionais, psíquicas, as cicatrizes na alma do individuo. Quer dizer, ele fica marcado para o resto da vida em razão daquele trauma que ele viveu no passado. Qualquer sensação semelhante à anterior que ele sofreu, um ruído ou um mal estar, ele passa a ter crises de pânico e crises de ansiedade incontroláveis”, explica Talvane de Moraes.
“Eu vivo tudo de novo. Tenho trauma até hoje. Não entro em shopping. Não vou em mercado que tem estacionamento”, revela Lúcia Regina da Silva.
A aposentada Mara Auada queria salvar o marido e as filhas mas não conseguia se mexer. “É uma sensação de incapacidade muito grande que você tem no momento”, conta a senhora. O fato de as crianças terem se salvado é um incentivo para superar as seqüelas. “Eu vejo que está acontecendo nos terremotos, e tenho essa sensação de desespero. O que eu desejo para todas essas pessoas que estão passando por isso hoje, como as minhas filhas, que elas acreditem que amanhã vai ser um dia melhor que hoje e que tudo isso vai passar. Essas pessoas vão ficar bem. A gente precisa acreditar que vai ficar bem”, afirma a aposentada.
O cirurgião Milton Steiman foi treinado em Israel para enfrentar emergências, provocadas por guerras e atentados, explicou que o tempo que o corpo humano resiste em uma situação limite varia de pessoa para pessoa e também de acordo com a idade da vítima, mas isso também é bastante influenciado pelas condições psicológicas da pessoa.
Outro exemplo de que o corpo humano é muito mais forte: em setembro de 1985 um terremoto de cerca de 8 graus na escala Richter atingiu a Cidade do México. Ao todo, 30 mil pessoas morreram, mas três bebês recém-nascidos foram retirados com vida de uma maternidade depois de quase sete dias presos nos escombros, sem comer e nem beber.
Fonte: Bom Dia Brasil

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