sexta-feira, 11 de maio de 2012

Trabalho e saúde. O “casamento perfeito”?

Por: Dr. Luiz Roberto Fava *

A globalização, fenômeno irreversível a partir de meados dos anos 80, trouxe, e vem trazendo, mudanças significativas para os negócios e para as empresas e, consequentemente, para as pessoas.

Alguns fatos a ela relacionados são:

◦a noção de espaço (fronteiras geográficas) deixou de existir.

◦Com o emprego da tecnologia podemos estar em qualquer lugar e nos comunicar com qualquer pessoa, onde quer que ela esteja.

◦a noção de tempo também deixou de existir.

Pessoas conectadas se falam a qualquer momento, não importando se é de madrugada, tarde ou noite no local de origem.

◦a noção de produtividade (fazer mais com menos recursos e em menor espaço de tempo) se exacerbou no ambiente corporativo, tornando-o mais dinâmico.

◦É óbvio que a tecnologia foi (e tem sido) o grande fator que tornou tudo isso possível. Internet, computadores portáteis, smartphones, tem facilitado a comunicação e os negócios. E, se alguém quiser, ela também permite que as pessoas trabalhem todas as horas do dia, seja na empresa, no parque, em casa, na cafeteria, etc.

Muitas empresas tem o hábito de obrigar seus colaboradores a ficarem continuamente conectados para serem encontrados, não importando onde e a que horas. O paradoxo é que muitos profissionais QUEREM ser encontrados porque tem receio de que, se não o forem, começarão a ser mal vistos pelo chefe e colegas de trabalho. E este receio, este medo, faz com que as pessoas acabem trabalhando mais horas.

Para mostrar o impacto da tecnologia no aumento do número de horas trabalhadas, a ASAP, consultoria de recrutamento de executivos, ouviu 1090 pessoas com renda mensal entre 5 e 15 mil reais. Os resultados foram publicados no jornal Folha de São Paulo. Foram eles:

◦68,5% afirmaram que sua carga horária aumentou nos últimos cinco anos,
◦56,1% não tiveram aumento de remuneração satisfatório que compensasse o maior número de horas trabalhadas,
◦77,8% afirmaram que são acionados fora do expediente, via celular, e-mail ou outros meios;
◦52,1% afirmaram que respondem e-mails durante as férias, e,
◦67% estão se sentindo mais cansados e estressados.

Em uma outra pesquisa, publicada no jornal O Estado de São Paulo, o IPEA ouviu 3796 pessoas residentes em áreas urbanas das cinco regiões do país, a respeito de se manter ligado ou não ao trabalho, mesmo após o expediente.

Os números mostraram que 45,4% não se desligam totalmente do trabalho e destes, 4,2% exercem outro trabalho remunerado, 7,2% procuram aprender coisas sobre o trabalho, 8% planejam ou desenvolvem atividades referentes ao trabalho via internet/celular, 26% ficam de prontidão pois podem ser acionados para alguma atividade extra.

Como a tecnologia transformou o trabalho em muito mais intelectual do que braçal na maior parte das atividades, é normal que as empresas cobrem muito pelos resultados finais, não importando se o colaborador está trabalhando em casa, no hotel, no metrô, no avião, no ônibus, etc.

Entretanto, esta sensação de cansaço e estresse também pode existir nas jornadas normais com menor número de horas mas onde a intensidade do trabalho atinge ritmos alucinantes.

Se este procedimento é incorporado à vida profissional do corpo diretivo da empresa, este exemplo também passará a ser seguido pelos profissionais dos escalões inferiores e, em pouco tempo, TODOS estarão trabalhando muito mais horas. O pensamento dominante será: se o meu diretor trabalha mais horas, é isto que vou fazer para atingir posições mais elevadas.

Mas, trabalhar muitas horas por dia, embora possa parecer algo bom no primeiro instante, tem feito com que as pessoas acabem pagando um preço muito alto por estarem conectadas e trabalhando em qualquer hora e em qualquer lugar. E isto inclui os finais de semana e período de férias, fazendo com que a casa do colaborador e os locais aprazíveis das férias acabem se tornando a extensão do escritório da empresa.

Isto pode fazer com que os colaboradores tenham percepções diferentes sobre seu trabalho.

O mesmo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA) verificou que apenas 41,3% dos empregados formais escolheram seu trabalho por interesses profissionais. O restante (58,7%) foi assim distribuído: 26,6% estão na atual atividade porque dependem dela para sobreviver e dificilmente encontrariam outro serviço, 18,4% percebem seu emprego atual como uma atividade transitória,até conseguirem algo melhor, 5,9% exercem essa tarefa por ser uma tradição ou negócio familiar, 4,7% desempenham uma atividade por engajamento político e 3,1% estão no serviço para ocupar o tempo livre. Estes dados foram publicados na revista Você RH.

Outro fator importante ocorre na faixa onde se encontram os profissionais mais qualificados.

Peter Kuhn (Universidade da Califórnia) e Fernando Lozano (Promona College, Califórnia) verificaram a porcentagem daqueles profissionais que terminaram a faculdade e que trabalham 50 horas ou mais por semana. Tal porcentagem subiu de 22% para 29% entre os anos de 1980 e 2004. Para aqueles que não terminaram o segundo grau, esta porcentagem caiu de 11% para 9%.

Em resumo,como afirma o Prof. Lozano, “a competição está entre os que ganham mais, e isto faz com que trabalhem mais”.

O fenômeno da globalização faz com que as empresas sejam mais exigidas e, em consequencia, exijam mais dos seus funcionários, afirma Helio Zylbersztajn.

O lado ruim de tudo isso diz respeito ao comprometimento da saúde das pessoas. O custo de uma piora na qualidade de vida dos colaboradores é muito alto, visto que seus limites físicos e mentais estão sendo ultrapassados, o que se traduz pelo aparecimento de uma série de distúrbios, tais como:

◦impaciência;
◦agressividade;
◦mau humor;
◦ansiedade;
◦angústia;
◦depressão;
◦pânico;
◦crises de choro;
◦irritabilidade;
◦uso abusivo de drogas e álcool;
◦agravamento de doenças crônicas, principalmente as cardiovasculares;
◦inconstância nos horários da alimentação;
◦gastrite;
◦digestão lenta;
◦perda de peso;
◦maiores índices de absenteísmo e presenteísmo;
◦aumento do número de faltas e atrasos;
◦dores musculares;
◦dores de cabeça;
◦baixa imunidade e aparecimento de infecções e cancer;
◦distúrbios do sono;
◦cansaço constante;
◦diminuição do poder de concentração;
◦menor capacidade de raciocínio;
◦menor criatividade;
◦menor produtividade;
◦menor capacidade de memorização;
◦maior desinteresse em praticar atividades física e de lazer;
◦piora nos relacionamentos afetivos interpessoais (família,amigos).
◦O grande paradoxo do excesso de trabalho é que, ao final, como consequencia da piora da saúde física e mental dos colaboradores, a produtividade será menor e os resultados ficarão sempre bem abaixo dos esperados.

E aquele Ser Humano, único, indivisível,acaba se “despersonalizando”,como afirma a psicóloga Silvania Brigido.

◦E o mais triste: o suicídio ou o óbito podem ser o desfecho final para este tipo de vida.

Aliás, já em 1930, Maurice Halbwachs, citava que as razões relacionadas ao trabalho que levavam ao suicídio eram o desemprego, falências das corporações e a existência de um sentimento obscuro de opressão que recaía sobre os funcionários, como relatam Venco & Barreto em O sentido social do suicídio no trabalho (2010).

Outras causas, relatadas por vários estudiosos, incluem as reestruturações (downsizings), as condições do trabalho, falta de vínculo empregatício (trabalho temporário), estágio, degradação da condição salarial, ambientes caracterizados pela dominação e submissão e estresse excessivo.

No Japão, o estresse decorrente do excesso de trabalho, e que pode levar a pessoa a óbito, chama-se karoshi. Com a aceleração da economia mundial, muitos executivos japoneses passaram a trabalhar em um ritmo mais alucinante, o que não evitou que fossem demitidos pelas reestruturações das companhias,levando-os ao suicídio,o que deu origem a um novo tipo de karoshi, o karojiatsu, ou seja, o suicídio causado pelo excesso de trabalho.

São de Ferreira (2008) as seguintes palavras:

Diferentemente de consultorias que que transformam o desgaste dos trabalhadores em “stress business” e lucram com atividades do tipo “ofurô corporativo”, é imperioso repensar os caminhos que tem tomado a reestruturação produtiva. Ela opera uma transição de paradigma ancorado, essencialmente, em uma “modernização” gerencial conservadora que combina distintos ingredientes: o aumento da responsabilidade das tarefas, a aceleração do ritmo de trabalho e a racionalização do controle por meio de novas tecnologias. O resultado é uma intensificação insuportável do trabalho. Esse enfoque de gestão parece estar transformando o trabalho no seu avesso: outrora modo de ganhar a vida, hoje, mais do que antes, modo de encontrar a morte. (grifo meu).

Mas existe o lado bom.

Sim, por incrível que possa parecer, o aumento do número de horas trabalhadas é bem vinda naqueles casos onde se deve, por exemplo:

◦atingir objetivos claros e definidos;
◦desenvolver projetos para serem entregues em curtos espaços de tempo;
◦aumentar o número de vendas em determinadas ocasiões, como natal, dia das mães, etc.;
◦reestruturar a organização;
◦realizar fusões, aquisições e vendas de empresas.

O grande mote é não fazer do aumento do número de horas algo contínuo, corriqueiro ou que faça parte da cultura da empresa.

É ótimo saber que muitas empresas já adotam diferentes ações para que o profissional, mesmo tendo que trabalhar algumas horas a mais em situações específicas, tenha sua saúde valorizada e levada em conta através de diferentes programas de melhoria não só da sua saúde física e mental, mas que abranja sua qualidade de vida como um todo.

Trabalho e saúde devem caminhar sempre de mãos dadas. Certamente este é um aspecto que deve fazer parte do DNA das empresas, principalmente daquelas que querem vir a ter o orgulho de receber o título de “uma das melhores empresas para se trabalhar”.

* Dr. Luiz Roberto Fava
luizrfava@gmail.com

Fonte: http://favaconsulting.com.br/

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