segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

Os cinco pecados capitais da tragédia no RS

Uma trágica combinação de fatores é responsável por um dos maiores dramas da história do Brasil.

Uma das maiores tragédias da história brasileira nasce de uma série de equívocos, erros e atitudes irresponsáveis. Na madrugada de ontem, 234 pessoas, sendo 120 homens e 113 mulheres identificados, morreram após incêndio na boate Kiss, em Santa Maria, interior do Rio Grande do Sul. O número de feridos, até o fechamento da edição, era de 92 pessoas. A maioria das vítimas morreu inalando fumaça.

Dos 92 feridos, 29 estão no Hospital Universitário de Santa Maria. O Hospital de Caridade da cidade também recebeu dezenas de pacientes, mas não confirma a quantidade de internados, já que muitos estão sendo transferidos para hospitais de Porto Alegre.

A Kiss fica no centro da cidade, com capacidade para cerca de 2 mil pessoas. Lá acontecia a festa “Agromerados”, promovida por seis cursos da UFSM (Universidade Federal de Santa Maria), com 1,5 mil pessoas.

Quem animava a festa era a banda Gurizada Fandangueira, que, segundo sobreviventes da maior tragédia do Sul do país, teve participação determinante no início do incêndio. Os integrantes da banda fizeram um show pirotécnico. Uma faísca de um dos sinalizadores atingiu o teto da boate. O fogo se espalhou rapidamente, por volta de 2h30.

As pessoas, desesperadas, tentavam sair do local, mas encontravam muitos obstáculos, inclusive, uma ação inicial dos seguranças da Kiss, que, não entendendo a gravidade da situação, impediam as pessoas de saírem, pois elas teriam que pagar o consumo primeiro.

Desorientadas pela falta de sinalização do local, alguns frequentadores erraram a porta de saída e entraram no banheiro, que ficava ao lado. Morreram lá, sufocados pela fumaça. Fumaça está que se concentrou no interior da casa noturna, com problemas de ventilação. Lá fora, quem conseguiu vencer todas as barreiras e alcançar a única porta de saída disponível, tentava ajudar de alguma forma. Os mais exaltados pegaram marretas e auxiliaram os bombeiros na tentativa de quebrar a parede de entrada do local, para que a fumaça pudesse sair com mais facilidade.

O especialista em gerenciamento de risco, Moacyr Duarte, resume com uma frase a fatídica madrugada de 27 de janeiro: “A pior combinação possível de fatores.”

Os corpos foram levados para o Centro Desportivo Municipal. Foi neste ginásio que os familiares fizeram o reconhecimento das vítimas. Os nomes dos mortos foram divulgados pelo governo gaúcho no final da tarde de ontem.

A presidente Dilma Rousseff antecipou sua volta do Chile, onde estava em agenda oficial, e esteve em Santa Maria. A imprensa internacional repercutiu o caso. Ontem mesmo já começaram os velórios das vítimas.

FALTA DE SAÍDAS DE EMERGÊNCIA

A boate gaúcha estava lotada e apenas uma porta era usada para a saída dos ocupantes, em meio a uma correria grande, fumaça e caos. “Tem uma porta só para entrar e outra para sair. A locomoção, quando está lotada, é complicada”, diz Rafael Urbanetto Peres, estudante de Santa Maria. Com o tumulto, muita gente caiu e foi pisoteada por aqueles que tentavam alcançar a porta de saída. “No meio do tumulto começaram a se pisotear, teve gente que não conseguiu sair. Foi um filme de terror”, falou um dos seguranças da boate.

SHOW PIROTÉCNICO

A banda Gurizada Fandangueira, que animava a festa, costuma abrir suas apresentações com um show pirotécnico, o que, segundo o especialista em segurança pública e privada, Jorge Lordello, ouvido pelo DIÁRIO, é uma prática bastante arriscada. “Eles acenderam o equipamento logo abaixo do teto, revestido de material para isolamento acústico extremamente inflamável. Os músicos até tentaram apagar o fogo com um extintor de incêndio, mas as chamas estavam no teto, reduzindo a eficiência. Não tinha como controlar as chamas.”

ALVARÁ VENCIDO

O alvará de funcionamento da boate Kiss estava vencido desde agosto de 2012, segundo o tenente-coronel Moisés da Silva Fuchs. A boate era uma das principais casas noturnas da cidade e era famosa por receber estudantes universitários. Segundo relatos de frequentadores à imprensa, ontem, o local costumava ficar lotado todos os sábados, exatamente pela popularidade dela junto aos estudantes. Ela tem capacidade para cerca de 2 mil pessoas e fica na rua dos Andradas, na altura do número 1.925. O alvará serve, entre outras coisas, para atestar as condições de prevenção e combate a incêndios.

CONCENTRAÇÃO DE FUMAÇA

A ventilação do local não era ideal, o que contribuiu para a concentração de fumaça e a inalação da mesma pelas pessoas. Imagens mostram frequentadores, sem camisa e sem nenhum tipo de material de proteção, tentando quebrar parte da entrada da boate para abrir buracos e facilitar a saída da fumaça. “Grande parte dos mortos estavam amontoados perto da saída. Lamentavelmente, as pessoas ficaram confinadas, respirando aquela fumaça concentrada, porque a saída estava trancada”, diz o comandante geral do Corpo de Bombeiros do RS, coronel Guido de Melo.

BLOQUEIO DOS SEGURANÇAS

Murilo de Toledo, de 26 anos, é um dos sobreviventes. Ele diz que os seguranças, logo no início do incêndio, dificultaram a saída das pessoas. “Parecia que eles achavam que as pessoas estavam saindo por causa de briga e eles não queriam que as pessoas saíssem sem pagar”. Uma grade que estava na porta da saída também dificultou. Outro problema: a boate não tinha sinalização apontando o local exato da saída. Muita gente entrou no banheiro, que fica ao lado, pensando ser a saída e morreu lá mesmo.

Sanfoneiro da banda morreu tentando sair do local

O sanfoneiro Danilo Jaques, o mais jovem integrante da banda Gurizada Fandangueira, morreu tentando sair da Kiss.

Segundo o baterista Eliel de Lima, de 31 anos. Danilo teve problemas para se desgarrar da sanfona, o instrumento musical que estava tocando. Eliel, que foi o último a deixar o palco, ajudou Danilo a tirar a sanfona. Depois disso, saiu correndo em direção à saída e ficou esperando em um estacionamento pelos outros cinco companheiros da banda. Aos poucos, os músicos se encontraram, mas Danilo não voltou.

“A gente saiu mal, no meio da fumaça, tive dor no peito. Fiquei aguardando para podermos nos achar, para ver quem tinha saído. Fomos nos encontrando aos poucos e ficamos na expectativa de achar o Danilo, mas ele não apareceu”, diz Eliel.

Antes da Gurizada Fandangueira tocar, a banda Pimenta e seus Comparsas subiu ao palco. Valderson Wottrich, líder do grupo, disse que dois dos quatro membros da banda ainda estão desaparecidos.

No começo da noite de ontem, a direção da boate emitiu uma nota oficial, assinada por Armando C. Neto.

“Nesse primeiro momento a prioridade da casa é prestar atendimento aos familiares. Informamos que nosso quadro de funcionários possui a mais alta qualificação técnica e estava treinado”, diz um dos trechos. Nenhum dos proprietários falou com a imprensa ontem.

Fonte: Diário de São Paulo

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