terça-feira, 18 de janeiro de 2011

Obesidade ainda é assunto de difícil abordagem nas empresas.

Dos 91.750 beneficiados corporativos da Omint (planos odontológicos), 28 mil receberam este ano um questionário de percepção sobre a própria saúde. Entre os 12.057 que responderam às perguntas, 18,74% avaliaram que estão com sobrepeso. Uma segunda medição, contudo, constatou que 42% estavam acima do limite de 25 de Índice de Massa Corporal (IMC). "Muitas vezes as pessoas nem percebem que já estão obesas e correndo riscos", alerta Caio Soares, diretor médico da Omint.

A pesquisa é repetida a cada dois anos desde 2004; nem sempre com os mesmos funcionários, mas sempre com base em quatro pilares. Há seis anos 96% dos consultados confessavam ter uma alimentação inadequada; hoje, são 95,83%. Os sedentários eram 41% em 2004; seis anos depois, 43,61%. Tabagistas confessos eram 18%; hoje são 12,8%. E os estressados subiram de 27,5% para 37,7%. Caio Soares reconhece que os resultados não são satisfatórios. "Nem sempre o funcionário percebe que a empresa investe em um programa de saúde porque está preocupada com ele e não apenas com a produtividade", diz. "Mas entre esses números há uma boa notícia: conseguimos influenciar 15% de pessoas que garantem estar comendo de forma mais saudável e fumando menos".

Qualidade de vida

As empresas estão atentas à questão. Na CPFL, onde 7,4 mil colaboradores trabalham na geração e distribuição de energia elétrica para 580 localidades, o Programa de Qualidade de Vida funciona desde 2002. Mais de 35% dos funcionários seguem programas de atividades físicas. Nos últimos três anos, em parceria com os Vigilantes do Peso, cerca de 300 colaboradores aderiram ao programa e eliminaram mais de 2,4 mil quilos. "Na média, é como se cada colaborador tivesse perdido quatro quilos e meio", calcula Luiz Carlos de Miranda, gerente de qualidade de vida da CPFL.

Dos R$ 10 milhões por ano que a CPFL investe na saúde, 90% representam equipamentos de proteção para trabalhadores da área externa. Cerca de R$ 800 mil são gastos nos programas de qualidade de vida responsáveis pela manutenção das academias próprias e terceirizadas, exames médicos, convênios com parceiros. "Esse investimento tem representado ganhos para a organização", diz Miranda. "Quanto mais atuarmos na prevenção de doenças menos gastos desnecessários teremos."

Orientação alimentar

A questão da obesidade preocupa as empresas - particularmente aquelas onde a rotatividade é baixa. "Para cada fator de risco há uma queda de 2% da produtividade", diz o médico Alberto Ogata, presidente da Associação Brasileira de Qualidade de Vida (ABQV). "Se um funcionário tiver fatores de risco, como obesidade, tabagismo, sedentarismo, colesterol alto, a produtividade pode cair em até 18%". Segundo Ogata, a obesidade ainda é um assunto de difícil abordagem nas empresas. Metade dos trabalhadores na indústria está com peso acima do desejado; um terço deles menciona chegar ao final da jornada cansado. Ogata cita dados da pesquisa do Sesi feita com trabalhadores do setor. Ali aparecem em destaque uma alimentação rica em carboidratos, pouca atividade física e horas seguidas em frente à TV. "Essa alimentação inadequada e essa falta de atividade combinadas são responsáveis pela obesidade que afeta a produtividade."

Às voltas com essa questão, muitos empresários nem imaginam que podem dispor de programas e cursos, orientação alimentar pela rede, centros esportivos, jogos estruturais e tudo que for necessário para tratar da saúde dos funcionários. "Todo empresário deveria saber que a qualidade de vida dos colaboradores é um assunto que vai afetar os resultados da companhia em algum momento", diz Ogata. "Mas o grande desafio é justamente entrar na agenda do empresário."

Estilo de vida

Muitas vezes o funcionário chega à nutricionista querendo perder peso e descobre em meio aos exames clínicos que é cardiopata, hipertenso ou diabético, diz Elza Maio, coordenadora de responsabilidade social e da área de recursos humanos da Avon. "A obesidade é consequência de um estilo de vida inadequado, com antecedentes e desdobramentos". Os 7,3 mil funcionários das cinco unidades da companhia recebem informações diárias sobre alimentação, estilo de vida e contam com suporte de nutricionistas e médicos. "São cerca de 70 consultas de rotina por mês", diz Elza. "Mensalmente, os casos novos, numa média de 20, têm como principal queixa o excesso de peso." A importância da alimentação adequada é o mote para que os funcionários atendidos se engajem em grupos de ajuda mútua, onde cada um conta sua expe riência e todos se beneficiam. Não faltam opções aos que se convencem a adotar uma alimentação saudável.

Na Serasa Experian, os quase 2 mil funcionários têm a parceria dos Vigilantes do Peso. No Programa de Orientação Nutricional, o colaborador pode gerenciar a própria dieta. Em 2009, segundo Luis Rensi, médico do trabalho e gestor do programa, as nutricionistas fizeram 594 atendimentos. Até agosto, as consultas chegaram a 400. "O programa inclui academia e alimentação adequada, e os funcionários podem optar entre fazer um combinado entre os dois", diz Rensi. Em 2005, 50,4% dos funcionários estavam com peso adequado; em 2010, são 54%.

Na SulAmérica, os segurados passam por avaliações. Dados de 569 empresas, envolvendo 180 mil funcionários, mostram que em 2004, o sedentarismo era a questão básica de 60,5% dos pesquisados; em 2009, de 59,8%. Estresse moderado e alto IMC eram problemas para 36,5%; quatro anos depois, de 37,9%. Sobrepeso atingia 35,4% (2004) e 51,6% (2009). Obesidade: 12,2% em 2004 e 13,8% em 2009.
Fonte: Valor Econômico

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